Danças Circulares Sagradas

13/10/2013 16:11

As danças circulares sagradas unem pessoas com o objetivo de celebrar a vida, redescobrir o prazer de pertencer ao corpo social e nele semear o amor fraterno.

Virada para cima, a palma de uma das mãos se prepara para receber o próximo; a da outra, voltada para baixo, se apruma para ser acolhida. A roda está selada. Um pacto de firmeza e ternura anima as danças circulares sagradas, modalidade coletiva instituída pelo bailarino e coreógrafo alemão Bernhard Wosien (1908-1986). Desde tempos longínquos, a humanidade entrelaça as mãos para reverenciar a vida e suas múltiplas passagens: nascimentos, casamentos, mortes, plantios, colheitas, batalhas, chegadas e partidas das estações do ano. O costume, que servia de elo entre os integrantes de uma comunidade e também entre eles e a esfera divina, perpassa o acervo das mais diversas culturas. Nos anos 50 e 60, Wosien, imbuído do espírito de pesquisador, percorreu os mais remotos vilarejos recolhendo indícios dessas manifestações. Em 1976, foi convidado pela direção da Comunidade de Findhorn, no norte da Escócia, para transmitir aos residentes da localidade a coletânea de gestuais simbólicos atrelados a músicas folclóricas. Nascia aí, formalmente, o movimento hoje cultuado no mundo todo e bailado ao som tanto de canções antigas quanto atuais, estrangeiras e nacionais. Cada coreografia reverbera uma intenção, seja emanar boas vibrações para o planeta, expressar gratidão por aquilo que recebemos diariamente, reverenciar os quatro elementos – terra, fogo, água e ar –, seja atiçar nossa criança interior, além de muitas outras temáticas. Parte das composições induz a meditações em movimento, uma vez que silencia o íntimo, estimulando a autopercepção. Já as versões festivas desencadeiam a alegria e a extroversão. Algumas são reproduções fiéis de danças tradicionais; outras, criações contemporâneas “patenteadas” pelos autores. Em ambos os casos, a origem e a autoria das sequências devem ser mencionadas aos presentes com o intuito de reforçar a preciosidade desse material.

 

Além de representar a totalidade – matriz para onde convergem nossos potenciais internos –, o círculo reforça a ideia de equanimidade. Uma vez formado em torno de um centro, possibilita que todos os pontos que o constituem experimentem a mesmíssima sensação de pertencimento. Nem mais nem menos, já que, a exemplo do Universo, tudo e todos estão interligados. De acordo com a terapeuta holística e focalizadora Simone Silvestrin, de São Paulo, a roda substitui a competição pela cooperação, o julgamento pela aceitação, o medo pela confiança em si e no outro. “Ali somos todos iguais, independentemente da cultura, e, ao mesmo tempo, cada um pode ser o que é”, diz ela. “Ao dançar, desenhamos formas harmônicas no espaço, ligadas a sons igualmente harmônicos, verdadeiras mandalas humanas em movimento, que nada mais são do que reflexos do nosso interior”, complementa Mônica Goberstein, uma das precursoras do movimento no Brasil, fundadora do SemeiaDança – Danças Circulares e da Paz Universal, na capital paulista. Ganhos de concentração, equilíbrio, coordenação motora e ritmo são certeiros. Mas, na visão de Mônica, a assimilação proporcionada pela modalidade é muito mais abrangente. “Trata-se de apreender muito mais do que aprender. Amplia-se a percepção de si mesmo, do vizinho, da roda, dos erros e acertos, da vida. Enfim, há um crescer interno”, assegura ela. Beneficiado por todas essas camadas de bem-estar, o revisor paulista Sidney Cerchiaro dedica as manhãs de quarta-feira às danças circulares. “Elas me dão a oportunidade de refletir, trabalhar a espiritualidade e esquecer as preocupações”, revela. E complementa: “A prática devolve o ritual ao cotidiano e faz com que nos sintamos parte do Universo”.

 

Fonte: https://casa.abril.com.br

Roda da Foto Focalizada por Anne Kellen e Inês Marcelino na praia de Pajuçara-AL.